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Texto pandêmico | 7 de setembro

curioso da minha janela, vejo o tempo avançando cada vez mais turvo. abro mão, um pouquinho a contragosto, dessa ideia de juventude eterna e recorro aos belos aros prateados dos meus óculos pra amenizar o obscuro. vale lembrar, que a minha acuidade visual não mudou nada, em comparação aos meus longínquos 28 anos. pasmem; no último exame, há alguns meses, ainda carrego o astigmatismo e os mesmos 0,50 graus em cada olho. que sorte!

mas não foi exatamente por conta da minha disfunção oftalmológica que resolvi escrever esse texto, a razão é outra. mesmo me percebendo melhor, na capacidade de absorver o que agora sinto e vejo indispensáveis pra uma vida mais próxima dos significados e da valorização dessa jornada, nunca perdi a capacidade de me constranger. ainda sinto com a mesma riqueza de detalhes o calor ruborizando meu negro rosto toda vez que cometo um erro de julgamento ou quando aplico aquela piada na hora certae que percebo imediatamente às risadas dos meus incautos ouvintes, que o conto me veio recheado de pré-conceitose da juvenil necessidade de pertencimento da quarta série.

em tempo: ainda piso nas pontas dos pés, quando no ambiente de trabalho, os profissionais da zeladoria estão limpando o local que preciso atuar. deixo de buscar água no bebedouro pela mesma razão. fico um tanto sem graça quando percebo que a geralme olha com admiração pelo meu providencial comentário intelectualizadoe ainda, quando nas gôndolas dos supermercados, hoje, não recorro ao exame dos preços dos produtos que coloco na minha cestinha e já em casa, a visão de uma maioria da população faminta, me entristece.
mas eu estou convencido de que não se trata de carregar uma super sensibilidade e sim, de uma relação cada vez mais honesta com o todo, com todos, pela importância de todo mundo na minha vida e da minha vida na vida deles; a importância cada vez mais, eu me importo!

pausa pra um respiro ( mas não muito )certa vez, fui convidado pra executar uma performance poética em um evento literário. pois bem; tratava-se de uma festival de 4 dias e fui convidado para o encerramento que estava programado para as 10:00 do domingo. topei de cara, mas depois, fazendo uma conta de padeiro“, pensei: “10:00 da manhã de domingo? encerramento? quem vai estar lá? depois da missa? pelo menos vou me apresentar pros expositores.” mas pra minha surpresa, quando cheguei ao local, por volta das 09:00, estava lotado. aquilo me aqueceu o coração. percorrendo o olhar por todo o ambiente, percebi que o público era formado por crianças e adolescentes, acompanhados dos pais e avós. no palco principal, uma performance de street dance. terminada a apresentação, a outra escola foi chamada para o seu grande momento. enquanto isso, as crianças da escola anterior já batiam em retirada, “arrastadas” por seus acompanhantes. terminada a apresentação do balé, aconteceu o mesmo e assim foi, até o grand finale“: a performance poética deste que vos escreve, com direito à dj nas pick ups, recursos visuais, material de cena e troca de figurinos. tudo no capricho.

mas depois de todas as apresentações escolares, todo o público saiu de lá, “sem cerimônia“. e de fato eu tinha razão: me apresentei para os expositores e organizadores do evento. conclusão: os adultosnão estavam lá por conta da imersão cultural ou ainda pela oportunidade de mostrar aos seus rebentos as possibilidades do contato com a literatura para a adequada formação das suas crianças ( ficou bonito isso! );
eles estavam lá por conta dos seus egos. pra alimentar um universo particular de vaidades. a vontade das crianças de permanecerem ali para assistir a apresentação dos colegas, não foi levada em consideração. e o casa ficou vazia. pareço ressentido com o relato? nada! fiquei foi constrangido. vocês precisavam estar lá pra ver a cara da equipe organizadora. meses de preparo, trabalharam duro por meses, diuturnamente, para oferecer o melhor para o público e é evidente que me diverti pacas com a apresentação e dei o meu melhor, inclusive pra aliviar a tensão que tomava conta do lugar. então, foi lindo.

sobre a grande moral da história; de lá pra cá, meu constrangimento tem se tornado metade de mim. lembrei de um trecho do livro as palavras“, de jeanpaul sartre, em que o autor narra uma passagem da sua infância: caminhando de mãos dadas com sua mãe, observou, com admiração uma menina do outro lado da calçada que também aproveitava o dia do mesmo modo. foi quando, se sentindo notado pela mãe da menina, desviou o olhar e baixou a cabeça em respeito àquela figura feminina, por ser ele, já um homenzinho“. sartre, em criança, já demonstrava essa compreensão, mesmo na metade do século xx. a falta dessa percepção me perturba imenso, toda vez que ouso colocar a minha casca dura pra fora do meu bunker. minha alma anciã se projeta em desvario.

hoje é 7 de setembro. lembro que o dia era aguardado pelas famílias e especialmente marcado pelos desfiles coloridos das escolas e suas fanfarras musicais, nas principais avenidas de cada cidade brasileira. lembrei do festival. hoje é o dia da independência da república. muito constrangimento. na entrada principal do meu prédio, reparei que a minha doação permanece solitária na imensa caixa da campanha, “ajude um brinquedo a encontrar uma criança”.

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