fbpx

Texto pandêmico | diário de bordo uti 80% SC

tirei o dia, por obrigação dos acordos sociais, pra refazer uns documentos. eu tinha hora marcada: meio-dia. descobri, só lá, que os portões abriam ao meio-dia e evidentemente, peguei uma fila imensa.

filas, sempre tem as suas… especificidades; as mais comuns: os desavisados/desorientados, que curiosos, entram na linha humana simplesmente porque dão de encontro com ela e os que entram do lado errado da fila – ou porque são desorientados mesmo ou por não perguntarem nada a ninguém e especialmente porque quase sempre não tem ninguém mesmo pra explicar coisa alguma.

pior que estar na fila e sentir o corpo doer por ficar tempo demais parado e ao mesmo tempo, contar com a demora pra entrar no estabelecimento e encontrar um lugar pra sentar pra descansar um pouco; é se sentir desconfortável por coisas que nem as convenções sociais dão conta: aglomeração, “papo-cabeça inverso”, reclamação dos fileiros entre si, etc.

atrás de mim, tinha um cara que transmitia, de quando em vez, mensagens pelo “zap” com um sotaque que certamente, não era o dele; uma mistura zoada de caipira-universitário-funkeiro, mas que quando largava o telefone pra reclamar da fila, falava de outro jeito, que não, o das mensagens. putz! a coisa foi piorando, quando o nosso ininteligível garoto, começou a assoviar “pisadinhas universitárias”. não sei ao certo se é assim que se chama o tal estilo, mas tenho certeza que era mais ou menos isso, pois senti a minha cabeça recebendo as tais “pisadinhas”.

alguém aí já experimentou assoviar de máscara? pois é… o cara precisava abaixar a máscara pra “rouxinolear”. não bastasse isso, eu sentia, na nuca, o sopro da falta de noção. não, eu não fiquei excitado, caro leitor, com o arrepio na nuca. o que senti foi raiva. podes crer!

passada essa etapa, adentrei ao recinto e as coisas pareceram tomar aquela ajeitada. escolhi um assento da longarina e percebi que na cadeira ao lado lia-se: “mais”, talvez, “xis”, por exigência do distanciamento social.

à minha frente, numa outra fila, tinha um cara de bermuda e chinelos, sendo atacado por um minúsculo “érpleine” que fazia a ronda diante das desnudas pernas do incauto rapaz. o inseto escolheu um bom lugar e ficou paradinho ali. a sala branca e iluminada, me permitia acompanhar todo o esforço do mosquito pra saciar a sua sede. deu até pra ver o ventre dele se avolumando. eu não podia avisar ao rapaz. deveria? cheguei a pensar, mas declinei. concluí que seria bem esquisito!

fui chamado, um tempão depois e parti pra segunda etapa do maravilhoso dia que se anunciava no outdoor da avenida da minha vida. agora, teste psicotécnico. partiu!

fui (des)orientado a procurar a sala 10/9 no décimo andar do edifício. no elevador, lia-se um “cartaz” em a4 com os dizeres: “capacidade, 04 pessoas. 50% da lotação. respeite o distanciamento social”. achei curioso. fazendo uma conta de padeiro, com “aspirância” a engenheiro e mesmo sendo muito ruim com lógica, me dei conta de que 4 pessoas já configuraria lotação máxima num elevador em que 4 pessoas seriam suficientes para se acotovelarem naquele espaço minúsculo. subi sozinho.

décimo andar. procurei a sala 10/9. fechada. a única sala aberta, não tinha numeração na entrada, mas estava… aberta. uma jovem senhora de jaleco branco e máscara rosa, atendia uma jovem de casaco verde e máscara preta. perguntei se era aquela, a sala do teste e ela respondeu secamente e sem me dirigir o olhar: “sim. tem um cartaz na parede”. tinha mesmo. na porta não tinha o número da sala, mas na parede tinha um “cartaz” em a4, todo amassado, escrito qualquer coisa relacionada ao teste. pediu pra eu entrar e sentar na cadeira ao lado. Pediu também pra que eu separasse um documento com foto e deixasse separadinho e em espécie, o “combinado” pra pagar o psicotécnico. perguntei: “você continua falando comigo?” foi quando ela, pela primeira vez, dirigiu o olhar pra mim, enquanto finalizava o atendimento da moça de casaco verde e máscara preta. “sim”, respondeu.

preciso esclarecer, que esta antessala, a do primeiro atendimento, era muito, mas muito pequena. havia espaço pra uma mesa e mais duas cadeiras: uma à frente da mesa e outra ao lado e, só.

a moça foi direcionada pra sala de trás, a do teste e eu fui atendido. tudo normal ( mais ou menos ). preenchi formulário e o assinei, lancei minha digital no sistema, paguei o teste e finalmente, também fui conduzido à sala. já na “saleta” ( chamemos assim ), fui orientado pela jovem senhora de máscara rosa e jaleco branco, a me acomodar na segunda fila que se formaria e que eu sentasse na última carteira dos fundos. ao meu lado, junto da parede à direita, tinha uma fileira completa de 4 pessoas. não caberia ali, 5 carteiras, pois não havia espaço entre a mesa à frente e a primeira carteira das filas. bem… nesse momento, estávamos em 5 pessoas. percebi que só cabiam mesmo, 4 carteiras, dessas de modelo escolar, nas fileiras e, desde que ficassem bem próximas. inclusive, também ficavam bem próximas, quando alinhadas lado a lado. eram 4 fileiras e portanto, 16 carteiras.

a nossa “professora”, trouxe da “antessala” mais um aluno e o orientou a sentar na carteira à minha frente. 6 pessoas. disse: “estou esperando mais duas pessoas chegarem e já poderemos iniciar o teste”. fiz um cálculo rápido e pensei: “que bom isso! mais duas pessoas = oito. 50% da capacidade da sala. aqui se respeita o distanciamento social. isso a globo não mostra”. sempre tem ironia rondando a minha cabeça. sempre!

ainda assim, fiquei cabreiro, porque se fosse pra ter 8 pessoas na sala, o adequado seria que ficássemos distantes, respeitando a lógica do “distanciamento”, mas vá lá; alimentei a esperança. 10 pessoas. 11 pessoas. ela comentou que o teste iniciaria às 14h e se retirou pra atender mais alguém que chegava. levantei, fui passando com dificuldade pelo corredor entre as carteiras, pedindo licença pra que os outros recolhessem as pernas pra eu passar e fui atrás da nossa “carcereira”. pedi permissão ao moço que estava sendo atendido já com o dinheiro combinado na mão e me dirigi à ela: “a senhora pretende lotar a sala?”, ela disse: “sim! começamos às 14h.” “a senhora desconhece o fato de que estamos enfrentando uma pandemia?” ao que ela respondeu catedraticamente: “eu sei. já recebi a visita do órgão fiscalizador, por duas vezes e tenho aval pra trabalhar nessas circunstâncias”. e completou: “eu sou vacinada e meu pai tem 81 anos e não pegou a doença!” pensei:”uót???”

bem, eu lhe adverti que o que ela dizia não fazia muito sentido e que sendo uma “profissional das humanas”, tinha o dever de considerar todas a variáveis. comentei ainda que até aquele memento, duas das pessoas que estavam lá na saleta, eventualmente, tossiam. ela comentou que a “sala” ( ela gostava de ver aquele espaço minúsculo, sendo chamado assim ), era eventualmente “vaporizada” com uma substância esterilizante; ou qualquer coisa assim, sei lá. falei que ela tinha obrigação de garantir a segurança dos que ali estavam. ela me disse: “se você não quiser fazer a prova…” voltei pra sala indignado. precisava passar por aquilo pela “convenção social”, lembram? entendem que o negócio poderia ficar complicado pra mim, se ela assim o desejasse, pela “preservação da ordem pública?”

pensei: “o teste psicotécnico, já começou quando entrei nesta saleta, agora tô entendendo”.

16 pessoas, lotação máxima. ainda não eram 14h. a jovem senhora de jaleco branco e máscara rosa, passa as explicações para o teste e quando percebe que o cara à frente dela, dá uma tossida bonita, comenta: “o senhor está bem?” e o cara responde prontamente e pigarreando: “sim. inclusive eu já fui vacinado.” ela sorri e diz: “o moço ali fez um comentário bem pertinente sobre a lotação da sala. peço que vocês mantenham as máscaras no rosto e não conversem entre si pra segurança de todo mundo. vocês não são crianças e sei que respeitarão as normas. peço que desliguem os celulares. o meu material, como podem ver, é todo higienizado e deixo os lápis nesse paninho limpo”. e aponta o “paninho limpo”. continua: “agora, vou passar os cadernos do teste pros primeiros de cada fila e vocês vão passando para os coleguinhas das carteiras de trás”. eitaaaa!!!

poderia acabar aqui, mas ainda não eram 14h. chegou mais alguém, ela foi atender, trouxe pra sala, digo, saleta, e o acomodou numa outra carteira bem junto à única porta que havia. “de fato, sou ruim com lógica”, pensei. de onde eu estava, não me dei conta de que havia uma carteira mais “escondidinha”. 17 pessoas. aglomeração, tensão, tosse, “vocês não são crianças” e 17. mera coincidência…

5 Comentários
  • Responder
    19 de julho de 2021, 15:20

    Estou a me benzer aqui sói de imaginar a fila, a saleta, e, claro, sem ser supersticioso; o 17…

    • Responder
      19 de julho de 2021, 20:01

      Rapaz; tinha que ser esse o número??? Fiquei perplexo pela coincidência! Só benzedura mesmo hehehe.

  • Responder
    19 de julho de 2021, 19:39

    Tenso!!!! às vezes sinto como se EU fosse a esquisita e fora da casinha nesses tempos sombrios de uma sociedade sem noção. Estamos no mesmo barco amigo. Ou devo dizer “na mesma saleta”? Abraço

    • Responder
      19 de julho de 2021, 19:58

      Grato por partilhar tuas impressões aqui nesse cantinho Roseli. Parafraseando uma amigo; “nós, os raros”, diuturnamente estamos sendo desafiados. Concordo: “na mesma saleta”.
      Abração.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: